sexta-feira, 15 de abril de 2011

ESTIO ANTECIPADO- Do livro: "PROPENSÕES MUSAIS"


ESTIO ANTECIPADO


Lá suspira a gentinha afogueada
Procurando uma fresca graça eólica;
Devido a mornaceira então diabólica
Duma estação de estio antecipada

E é bom de ver, à vista desarmada
Casos de sonolência, em si bucólica;
Circunstância que pode ser simbólica
Da iminência da acção da trovoada.

E além de braços nus, em evidência
Lá se troca o botim pela sandália
E enchem-se piscinas, com urgência;

Enquanto, muito cravo, rosa e dália,
Por seu lado, e devido á incongruência,
Exigem rega – em muda represália.

2010

quinta-feira, 14 de abril de 2011

CASTANHA ASSADA NO POTE - ( ENTRE QUINTA E SEXTA- 2011/04/14 ) Do livro: "DA RÚSTICA MUSA QUE PASSA"


CASTANHA ASSADA NO POTE


Não convém distracções e nem demoras
E lá vai mais de sal, punhado franco
Levando o pote, mais um solavanco
E agitando abano, mãos sabedoras

Há repetidas cenas, vencedoras
E cada castanha, é um saltimbanco
Entretanto um pozinho fino e branco
A todas elas põe mais sedutoras!

Por fim um tabuleiro, é como um palco
E elas – Como que tendo pó de talco –
Estão expostas em monte ou fileiras;

Belas castanhas, quentes e tão boas
(Tentação verdadeira p’rás pessoas
E vendidas à dúzia em qualquer feira. 


2003

quarta-feira, 13 de abril de 2011

UM RAPAZ TIDO POR : COISA FOFA - Do livro: "RELANCES DUM OLHAR"


UM RAPAZ TIDO POR: COISA FOFA 


  – Sem abusar dum néctar de caneca –
Dois compulsivos vícios, nele havia:
Comer bem e dormir boa soneca;
E de tal forma, que forte enxaqueca
Depois de feita a sesta, então sofria.

E as camisas que usava, em seda fina
Confirmavam, que mais do que balofa
Tinha gordura, tipo “gelatina”;
Contudo uma simpática menina     
Chamava ao bom rapaz: coisinha fofa!

Eis que após nos seus vícios cismar
Decidido e de vez, portas lhes fecha;
Conseguindo um escol prémio ganhar,
Que a boca da “simpática”, foi dar,
Na dele - por não ver-lhe, uma bochecha!


2010/03/30
 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

PERANTE UM SOL DE ABRIL,POUCO GENTIL - ( O POEMA DA SEMANA - 2011/04/11 ) Do livro: "DA RÚSTICA MUSA QUE PASSA"

PERANTE UM SOL DE ABRIL, POUCO GENTIL

I
Por o sol não estar muito gentil
Os calceteiros tinham pouca sorte
E dava a previsão – mais para o norte
Durante essa semana, aquoso Abril…

Par’cia Inverno em vez de Primavera
Porque a chuva entre abertas, lá caía;
Todos eles, achavam ironia 
Nesse mês, ambiência tão austera;

Eis que caiu na lama, o mais esperto
Dando em riso geral – sobremaneira
Só que a coisa não era brincadeira
Porque não se mexia o moço ao certo.

E um dos outros, crendo-o amarelo
Com certa abruptidão e sem mais nada,
– Não vendo por perto, água açucarada –
Deu-lhe mesmo na nuca, co’um martelo.

Todos consideraram de maugrado
Uma atitude assim, tão repentina
Mas por sorte, surgia de uma esquina
Uma ambulância p’ró acidentado.

Só que ele, a si voltava – estupefacto
E patenteando apenas um problema:
O de ter na cabeça um grande edema
E dessa martelada – isso era um facto.
II
Muitos acreditaram ser prodígio
Não haver consequência, bem pior;
Que ao calceteiro em breve, passou dor
E do edema, deixou de ter vestígio.



2009

quinta-feira, 7 de abril de 2011

TERNA PLACITUDE- ( ENTRE QUINTA E SEXTA - 2011/04/0 7) Do livro: "ESTRO DE MULHER"


TERNA PLACITUDE

Ganhou viço, o prado, com as chuvadas
E a solarenga ternura aprilina *,
Honra a cabra, o bode, a ovelha merina,
Nele entregues, a suas ruminadas.

E se essas criaturas esparsadas,
Me criam mil anseios de campina,
O que mais certamente me fascina,
É ver em manadas, vacas malhadas!

Com ossudas ancas e cheias tetas,
Com o corpo, às malhas brancas e pretas
Hoje, em dia, entregues ao pasto sós…

Criaturas com olhar de ternuras,
Que vistas de cima, a grande altura
Parecem curiosos dominós!

1993

* Referente ao mês de abril


segunda-feira, 4 de abril de 2011

AS MENINAS DOS MEUS OLHOS - ( O POEMA DA SEMANA - 2011/04/04 ) Do livro: ( já editado) " ESTRO DE MULHER"



AS MENINAS, DOS MEUS OLHOS


Essas minhas, eternas crianças, traquinas,
(E com a mesma idade, que tenho, porém)
Denunciarão, elas, assim pequeninas,
Essas minhas adoradas gémeas meninas,
A tamanha experiência, que ambas já têm’

É que a outras meninas, sem conta, sorriram
A outras também, muito estimaram e amaram;
No pretérito, muitas outras iludiram,
A outras, (sem dó) traquinamente mentiram
E de algumas, (porventura) se desviaram…

São e sempre foram, bastante vigorosas,
Nunca lhes chegara, qualquer doença ou mal;
Só que “ontem “, eram terrivelmente teimosas,
Eram umas meninas, por demais chorosas,
Que, tantas vezes, me deixavam ficar mal…

Sem regra, se banhavam em água salgada,
E p’ra isso, dois lagos faziam encher;
Quantas das vezes, eu era contrariada,
E ficando impotente, ante essa criançada,
Porque aí, já nada poderia fazer!?...

Por isso, mesmo, as disciplinei a contento,
(Mas sem as deixar, insensíveis ao pesar,
À extremosa alegria ou grande sofrimento)
E em boa verdade, elas, a qualquer momento
Choram sim, mas tão-somente, se eu as deixar…

De modo, que de vez em quando, (sem contarem)
Que é, quando sinto “invernias” de saturar,
Deixo então, meus dois lagos secos inundarem,
Para assim, minhas meninas, se compensarem,
Das muitas vezes, que eu as não deixo chorar!...

Porque deixá-las fazerem-no como outrora,
A cada pequena emoção ou dor sentida?
Isso é que já não lhes permitirei agora;
Acontece sim, e até mesmo, sem ter hora,
Chorar eu, como Madalena arrependida!...

E as lágrimas, são os meus adorados versos,
Que vou derramando, neste livro, só meu;
Que dele tenho, por lenços brancos, dispersos,
Para meus momentos de emoção ou adversos,
As suas folhas, e onde à vontade, choro eu!...