domingo, 29 de maio de 2011

A UM ( MEU) SAPATO ROTO- ( O POEMA DA SEMANA - 2011/05/30) Do livro: "DA RÚSTICA MUSA, QUE PASSA"

A UM (MEU) SAPATO ROTO


Aguenta-te lá oh sapato roto
Não queiras ser ainda mais maroto
Que sofro em meu orgulho, molestares;
Até estou ficando atrapalhada
E ganharei rubor, se na calçada
Os meus dedos, de ti, tu libertares…

Tenta ser solidário com meus ais
Não me dando receios, ‘inda mais;
Que se parar aqui o teu rasgar
Poderei correr léguas por demais
Ou saltar muros, grades e quintais
Co’a sorte de meus dedos, não mostrar.

Por isso, tu com força de vontade
E eu procurando ter grande à-vontade
Iremos embair a multidão;
E graças a teu gesto de amizade
Um certo ar de rainha, então me invade
E sendo tu, o meu nobre brasão!

É que esta minha pobre alma penada,
Suspeita, fica mesmo agonizada
Com receio de mais te ires rasgar;
Não frustres esta amiga devotada
Que fica veramente envergonhada,
De ter – com tempo assim – dedos ao ar

Terra percorreste, em tempo passado
Calçado, lama – lixo foi calcado
(Já foste novo, airoso e muito forte)
E agora amigo, sei que estás cansado,
Mas por favor, esquece isso um bocado
E não queiras ceder na rua à morte.

Depois por recompensa, atribuir-te-ei,
O merecido Céu, que reservei:
Por o empenho teu, assim profundo
Oh meu sapato roto, guardar-te-ei
Num lugar, onde só eu te verei
E por tal, escondido deste mundo!

1971

sábado, 28 de maio de 2011

MODELAGEM A PARTIR DE CHIFRES DE BOBINO

ABSTRAÇÃO - Do livro: "DEAMBULANDO POR CAMPOS BIOGRÁFICOS"

ABSTRAÇÃO


Quantas virtuais nuances
Nos tivéramos já agarrado
Como que um restício de fé,
Que assola o condenado
Ou fiozinho de vida,
No esperançar do moribundo?

Para num fatal segundo,
Deixarmos cair os braços
– Por incúrias ou cansaços –
E todas essas performances,
Deixarmos escorregar,
Tal fina areia do mar,
Por entre os dedos das mãos,
Deitando por terra, chances?!...


2005

quarta-feira, 25 de maio de 2011

CRAVO DE AMOR (ENTRE QUINTA E SEXTA -2011/05/26) Do livro: ( a editar) "DEAMBULANDO POR CAMPOS BIOGRÁFICOS"

CRAVO DE AMOR

                
Num coração que não vai em mentira;
Um cravo-de-amor, é-lhe duro “emblema”...
E pior se cravar saudade extrema
Dum crido laço firme, que falira...

Pior que coisa dada e que se tira…
E que às vezes melindra mais que algema;
Mas quem será imune a tal problema?
– É frase imposta a quem se auto-inquira. –

Cravo-de-amor, final de relação
Dum arreigado amor, o fim ou não
E pode o olvido ser, a grande urgência…

Porém se algum apego ‘inda persiste,
Não é qualquer adeus, que faz despiste
De um importe de tanta proeminência!

2009

UMA NUVEM DENSA - Do livro: "DEAMBULANDO POR CAMPOS BIOGRÁFICOS"

UMA NUVEM DENSA


Tem por vezes a mente, nuvem densa
Tapando-lhe quer sol e quer luar
Tornando sorumbático o olhar
E o sorriso, com amargura imensa

E se nuvem assim, mantém presença
Desmorona ilusões de deslumbrar
Faz mesmo alguém da vida se cansar,
Se é que a evaporar, não se convença

E assim em lado algum estar-se-á bem
Sai-se dum, p’ra voltar-se em tempo breve
Que a nuvem, teima em mente persistir;

E às vezes sem haver ar, que a bem leve,
Debalde até mesmo o “arco-íris” lhe intervir
Que ela tem, secas lágrimas e neve.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

AS NÚVENS TAMBÉM CHORAM ( O POEMA DA SEMANA -2011/05/23) Do livro ( a editar): "DEAMBULANDO POR CAMPOS BIOGRÁFICOS"

AS NÚVENS, TAMBÉM CHORAM...

 
Para eventuais horas desta vida
Que um choque, nos provoquem sobre o ego,
Com doses de um enorme desespero
E carradas de um ânimo infeliz,
Há para o olhar triste: algum tempero
E para a ama em dor : medicatriz

Nossas lágrimas foram engendradas
Para negros momentos de agonia
Quer seja de saudade, ou de lamento
De um enorme prazer e emoção;
E se delas, correr for o seu intento
Porque não lhes dar essa permissão?

Todo o mortal decerto exp’rimentou
Perante um desagrado ou um fracasso
Sua garganta um nó a apertar;
Decerto, um dia já foi confortado
Pelo alívio, então ganho no chorar
Quando uma ilusão, se lhe fez fado

Quanta emoção, por certo, já sentíramos
E as lágrimas que não nos resistiram
Por um mérito em nós, reconhecido
Ou prova de real abnegação?
Quanto chôro, tivemos já vertido
Num abraço de paz e de perdão?

Por isso não te inibas oh mortal
Do uso desse alento natural
Que as lágrimas em si, até melhoram;
O choro até dá luz, há alma em breu
Olha que as próprias nuvens também choram
E sempre tão felizes, lá no Céu!
 
1968