quinta-feira, 9 de junho de 2011

POR-DO-SOL NO MAR - (ENTRE QUINTA E SEXTA- 2011/06/09) Do livro:( Já editado) "ESTRO DE MULHER"


POR-DO-SOL, NO MAR


Mais uma vez, muito o sol e a terra irão vibrar,
Porque (bastante cansado e tombando sobranceiro)
O sol, evidenciará seu pundonor, aureolando o mar,
E estender-lhe -á seus raios, em forma de ribeiro!

Estreito e lucescente ribeiro, na vertical do mar!
Eucromático ouro, sobre, então, cerúlea, cor divina!
Será pintor algum, capaz de mais belo azul afinar?
Encontrará no mercado, mais perfeita purpurina?

E quando o mar (arrebatado de contentamento)
Com ondinhas, acaba por o dourado ribeiro beijar,
Céu e terra, testemunham um maior deslumbramento,
Que do ribeiro saem faíscas de ouro, a cintilar!

Até que chega zéfiro ou neblina com sua doutrina,
Mostrando que a noite, está impaciente, por entrar;
E a auréola, tornar-se-á cada vez mais pequenina,
Fazendo o ribeiro conhecer, progressivo estreitar….

Por fim, réstia de auréola atrai réstia de ribeiro,
E lá vão os dois, para a alma de Neptuno pernoitar;
Fôra um espectáculo nobre, belo e mui verdadeiro,
Fôra o reiterado e apoteótico pôr-do-sol, no mar!



199




terça-feira, 7 de junho de 2011

SEM TI, NOITE - Do livro: (a editar)"PROPENSÕES MUSAIS"

SEM TI, NOITE


Ver-se-ia a refulgência das estrelas?
Seus divinais dourados e formas belas
Irradiaria no lago, ribeiro rio ou mar
A lua, com sua prateada auréola de luar?
Luziriam esplendorosos e ternos pirilampos
Nos jardins, nos quintais ou nos campos?
Os olhos de alguns animais, teriam patentes
As centelhas duns faroisinhos candentes?

Ouvir-se-ia a rã, com um coaxar mais intenso?
Seria o morcego a procurar os círios, propenso?
Recolheriam do pagode as aves aos capoeiros
Deixariam pastos, bois ovelhas e carneiros?
Ouvir-se-ia do gato, tantas vezes o seu miar?
As cativas rolas, intensificariam o arrolar?
E o sonho, será que tantas vezes existiria?
Morreria o dia e o orto de outro surgiria?

Sem ti noite, sem o negro pano de fundo que és
Essas coroas nos telhados, chamadas chaminés
(Umas menos, outras porém mais altaneiras)
Deixando sair dos fogões e das lareiras
Quer fumos brancos ou cinzentos, tanto faz
Pareceriam tanto, ternos cachimbos da paz?
Que seria oh noite de tanto encanto do Verão
Que seria, se teu frescor, não lhe desse a mão?




1990




segunda-feira, 6 de junho de 2011

DIA DE FEIRA - (O POEMA DA SEMANA 2011/06/06) - Do livro: "ESTRO DE MULHER"


DIA DE FEIRA


Pela manhã, com sol ainda a medo,
Vendedores se deslocam à feira,
Dispostos, a seus produtos, venderem;
E alguns, em egoísmo de primeira,
Catam o melhor lugar, com canseira,
P’ra com simpatia e algum enredo,
Então, os compradores convencerem:

– Oh menina, não quer comprar castanhas?
“ Olhe estas maçãs, olhe esta riqueza”
– Já viu umas nozes assim tamanhas?–
“Quem quer ovos de galinha do campo?”
– Olhai as minhas couves sem sulfato! –
“Flores para alegrar a vossa mesa”!
– Quem quer comprar peixe fresco e barato?

Todos conseguem arranjar “poleiro”
E a música, també, topa lugar;
Cassetes em barracas, soam alto,
E um ou outro, mais audaz e matreiro,
Não apregoa só, fado ligeiro,
Mas ‘inda canção que fará corar,
Moça solteira, que vá a passar:

– Para as cachopas, muito eu encantar,
(As livres e também comprometidas)
Além de modas fresquinhas – antigas,
Tenho aqui, para vós, neste rico engenho!,
Escutai, a que vos vou pôr a tocar,
E se não gostardes, oh raparigas,
Coisa muito melhor ainda tenho!...

E em dia de feira, também ciganos,
Vendem e a preços muito populares:
Chinelos, sapatos e roupas finas,
Malas, carteiras e montes de panos;
Agora, já não são mais aldrabões,
Quebraram, muitas das suas esquinas,
E conquistaram, nossos corações!

À quarta-feira, aproveito o ensejo,
De. Ao fazer compras, estender o olhar;
E entre mil coisas, eu, atenta, vejo:
Camiões, com bela fruta brilhando,
Onde alguma insegura, à terra rola,
E que p’ra poder matar um desejo,
Co’a apanha o corajoso se consola!

Pessoas passeando outras correndo,
Se desviando das motorizadas,
Dos automóveis e carros de mão;
Sorrindo, quer feios, quer bonitões,
Se vendo pais e filhos de mãos dadas,
Os conhecidos, se saudando, então,
E alguns apertos, além de encontrões.

Cegos, pedindo a bondade de esmola,
Mendigos, chegando sua sacola;
E vejo: (quando os feirantes recolhem,
Que é no término da feira, mais tarde),
Irem os p’la sorte desamparados,
Remexer, em papeis amontoados,
Onde uma grande esperança os invade!

E, depois, (de bruços no varandim)
Vejo da azáfama feiral, seu fim:
Os animais que não foram vendidos,
Regressarem cansados – doridos,
De tantas horas, vítimas do sol,
Da chuva ou neve e aprisionados,
Para poderem ser negociados…

Mais feiras semanais sucederão,
Com os apregoos dos vendedores,
Dos artigos que trazem para a feira;
E a preocupação dos compradores,
Do preço em questão, se regatear,
Porque o conteúdo de cada carteira,
São gotas do suor de trabalhar!

1982


sexta-feira, 3 de junho de 2011

SONETO DE ALENTO - Do livro:" ENTRE O ANTO E O ACANTO"


SONETO DE ALENTO


Nunca mandes um belo sonho embora
Porque de teus malogros, não é réu;
Não ponhas, negativa carga, ao léu
Antes sim: positiva e hora-a-hora.

Aceita tudo, o que alma revigora,
– Em vez de lhe aplicares, triste véu; –
E pinta desde já, sempre o teu Céu,
Da cor daquela fé, que não descora.

Se co’isso, a maus prenúncios, dirás não
No agir, porás só rasgos de eleição
E no pensar, opção, de senso jus;

Logo, em positivismo a discorrer
Há outro entendimento – outro saber!
Uma outra conceção de sombra e luz!


2009 /01/22 Biblioteca Camilo Castelo Branco     61 anos


quinta-feira, 2 de junho de 2011

DIÁRIO RASGADO - ( ENTRE QUINTA E SEXTA- 2011/06/02) Do livro: "ENTRE O ANTO E O ACANTO"

DIÁRIO RASGADO


Deixar cá um diário, para quê?
Torná-lo em espelho de ais e dores?
De risos, exageros, e de humores,
Como um historial em ABC?

E além do mais, há gente que não crê,
Na exactidão, quanto ao rol de traidores;
Quanto ao de charlatães e impostores, 
Na bem mais injustiça, que mercê…

Por isso, pus-me um pouco a magicar,
 E após os meus botões questionar
 Em breve o destrui – rasguei-o, pronto;

E sendo ou não um ato extravagante…
Se o acervo escrito, era interessante?
– De tal maneira o era, que nem conto!...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A NARCISO - Do livro: "ESTRO DE MULHER"


A NARCISO


Mira-te Narciso em águas da nascente
Baboseia-te, ante o encanto que Deus te deu;
Ter vaidade, é bem menos fútil, certamente,
Que pôr um “postiço”, feito modéstia, ao léu…

Isso Narciso, ergue a nuca orgulhosamente!,
Porque a vaidade, não é fruto de Asmodeu;
E a “carapaça” da modéstia, nos desmente,
Usá-la é enganoso, isso é que brada ao Céu!...

Com seu “peso”, iremos mais devagar em frente
Mas perfumados, duma salutar vaidade,
Que peso em cima de nós, é que a gente sente?....

Vaidade, poderá ser modéstia em verdade,
E a “carapaça” da modéstia, é repelente…
É a mais fútil vaidade da humanidade!...


1990